Artigos técnicos

02/01/2012

Doença renal crônica em gatos – novas classificações e estadiamento


Por: Prof. Msc. Alexandre G. T. Daniel

A doença renal crônica (DRC) é uma enfermidade comum na espécie felina, sendo considerada a doença mais comum de gatos idosos e a segunda maior causa de óbito em pacientes geriátricos. Possui prevalência variada de acordo com a faixa etária do indivíduo, chegando a acometer aproximadamente 49% dos gatos com mais de 15 anos de idade.

A nefrite túbulo-intersticial crônica é a principal causa da doença renal crônica em gatos. No entanto, este achado somente reflete um padrão lesional comum frente a diversos fatores incitantes diferentes. Na maioria das vezes, a causa incitante da lesão e da perpetuação do dano renal é desconhecida.
Outras causas frequentes de lesão e doença renal crônica são as glomerulonefrites, amiloidose, pielonfrite, doença policística, nefrólitos e neoplasias.

Classificação


No passado, a DRC era classificada em discreta, moderada e importante, além de possuir outras nomenclaturas, como “insuficiência renal crônica” e “falência renal”. As diversas classificações e terminologias geravam divergências e diferentes condutas de classificação frente a um mesmo caso. Visto isso, a International Renal Interest Society criou um sistema de classificação uniforme, baseado primariamente em valores séricos de creatinina, e com sub-classificações baseadas na proteinúria e na pressão arterial sistêmica. Este sistema de estadiamento é o padrão utilizado na atualidade, tanto para a definição de manejo e diagnóstico clínico, quanto em pesquisas.
Os animais são classificados em:

Estágio 1: neste estágio, não azotêmico, o animal já apresenta alguma anormalidade renal macroscópica (alteração no tamanho à palpação), alteração em exames de imagem (tamanho, ecogenicidade, forma), proteinúria renal, alteração histológica ou perda de capacidade de concentração urinária. Valores de creatinina menores que 1,6 mg/dL.

Estágio 2: com a progressão da doença, nesta fase o animal já possui diminuição da taxa de filtração glomerular e possui azotemia discreta, bem como manifestações clínicas brandas. Perda de cerca de 2/3 da função dos nefros. Valores de creatinina entre 1,6 mg/dL e 2,8 mg/dL.

Estágio 3: animal com azotemia renal moderada, com diversas manifestações clínicas presentes. Valores de creatinina entre 2,8 mg/dL e 5,0 mg/dL.

Estágio 4: azotemia importante, síndrome uremia. Valores de creatinina maiores que 5,0 mg/dL.

É importante ressaltar que, embora o sistema de estadiamento seja baseado nos valores séricos de creatinina, este não pode ser aplicado a animais com azotemia pré e pós renal ou com nefropatia descompensada. O animal deve estar estabilizado e corretamente hidratado para a correta aplicação deste sistema de classificação.

Os estágios acima discernidos são complementados com a pesquisa de proteinúria (relação proteína: creatinina urinária – RPCU) e avaliação da presença de hipertensão arterial sistêmica (risco de lesão em órgão alvo – LOA), da seguinte forma:

Proteinúria:

Relação proteína: creatinina urinária < 0,2 – Não proteinúrico
Relação proteína: creatinina urinária entre 0,2 – 0,4 – Proteinúrico “limítrofe”
Relação proteína: creatinina urinária > 0,4 - Proteinúrico

Hipertensão e Nível de risco de LOA*

<150 Mínimo
150 – 159 Baixo
160 – 179 Moderado
≥180 Elevado

*LOA – Lesão em órgãos alvo: lesão em sistema nervoso central (encefalopatia hipertensiva), olhos (retinopatia/coroidopatia hipertensiva), sistema cardiovascular (hipertrofia miocárdica) ou rins (glomerulopatia hipertensiva)

Manifestações clínicas e abordagem

As manifestações clínicas podem ou não estar presentes na fase inicial da doença, e geralmente são específicas (desidratação, disorexia, prostração, vômito esporádico). Com a progressão da doença, anorexia, perda de peso, poliúria/polidipsia, anemia não regenerativa, diminuição do tamanho dos rins à palpação, hálito urêmico e úlcera urêmica podem ocorrer.
No geral, a abordagem ao paciente nefropata visa a:
- caracterizar a doença renal, pesquisando possíveis causas associadas;
- estadiar o processo, avaliando a perda de função;
- pesquisar os problemas associados à DRC, realizando o manejo clínico; quando a causa for conhecida, investir no tratamento direto da causa (p.e., pielonefrite).

A equipe do Laboratório do Provet está disponível para esclarecimento de dúvidas junto ao médico veterinário. Qualquer problema ou dúvidas entre em contato conosco.

Leitura complementar sugerida:

Ross SJ, Osborne CA, Kirk CA, Lowry SR, Koehler LA, Polzin DJ. Clinical evaluation of dietary modification for treatment of spontaneous chronic kidney disease in cats. J Am Vet Med Assoc 2006;229:949-957.

Syme H, Markwell PJ, Pfieffer D, Elliott J. Survival of cats with naturally occurring chronic renal failure is related to severity of proteinuria. J Vet Int Med 2006:20:528-535.

Jepson RE, Elliott J, Brodbelt D, Syme HM. Effect of control of systolic blood pressure on survival in cats with systemic hypertension. J Vet Int Med 2007;21:402-409.

King JN, Tasker S, Gunn-Moore DA, Strehlau G. Porgnostic factors in cats with chronic kidney diseases. J Vet Int Med 2007;21: 906 – 916.

Roudebush P, Polzin DJ, Ross SJ, Towell TL, Adams LG, Forrester SD. Therapies for chronic kidney disease. What is the evidence? J Fel Med Surg 2009;11(3):195-210.

Kidder A, Chew, D. Treatment options for hyperphosphatemia in feline CKD. J Fel Med Surg 2009; 11(9): 913 – 924.




fonte: Provet